Em 2017, um episódio marcou de forma definitiva a luta por acessibilidade e pelos direitos das pessoas surdas no Distrito Federal. À época presidente do Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Michel Platini formalizou denúncia pela ausência de intérpretes de Libras nos serviços públicos do DF, apontando a negligência sistemática do Estado na garantia do direito à comunicação.

A denúncia foi encaminhada ao Ministério Público de Contas, diante de indícios de que o procedimento que investigava a responsabilidade do Governo do Distrito Federal poderia ser arquivado sem a adoção de providências efetivas. Para impedir o silenciamento institucional, Michel Platini e Carlos Augusto, ativista e homem surdo, solicitaram conjuntamente a inscrição para realização de sustentação oral no processo em trâmite no Tribunal de Contas do Distrito Federal.

A iniciativa já representava um gesto político contundente: levar à tribuna de um órgão de controle um sujeito historicamente excluído do direito à fala institucional. No entanto, o próprio Tribunal não contava com intérpretes de Libras. Carlos iniciou sua sustentação em Libras, foi interrompido pela ausência de condições mínimas de acessibilidade e, diante da impossibilidade de comunicação, ergueu um cartaz com a frase: “Eu sou surdo e preciso de intérprete de Libras”.

Diante da cena, Michel Platini subiu à tribuna e assumiu a função de intérprete, tornando-se a voz de Carlos naquele espaço. Traduzindo sua fala, Michel comunicou ao plenário que Carlos não nasceu surdo, mas adquiriu a surdez após uma meningite e que, a partir desse momento, passou a perder direitos básicos em razão da ausência de comunicação em Libras nos órgãos e serviços do governo.

A sustentação conjunta expôs, de forma incontestável, que a exclusão não estava na deficiência, mas na omissão do Estado. O impacto foi imediato. O Tribunal decidiu não arquivar o procedimento e instaurar sindicância para apurar a negligência do GDF quanto à oferta de intérpretes de Libras.

Naquele dia, Michel Platini e Carlos Augusto realizaram uma sustentação histórica, registrando o primeiro momento em que um ativista surdo e um intérprete de Libras ocuparam a tribuna do Tribunal de Contas do DF, alterando o rumo de um processo institucional e afirmando que acessibilidade não é favor, é direito humano.

O episódio tornou-se símbolo de uma atuação comprometida com a justiça social, a escuta ativa e a centralidade das pessoas diretamente afetadas pelas decisões do Estado. Quando a acessibilidade virou voz, o processo mudou — e a história também.